• October 3, 2016

Fonte: GLOBALFERT


O Diretor Executivo da Ama Brasil, Carlos Eduardo Florence, foi entrevistado pelo GlobalFert e apresentou sua visão sobre o mercado de fertilizantes e perspectivas futuras para o setor. Florence é economista, técnico agrícola e trabalha no setor de fertilizantes há 50 anos. Além de ser Diretor da Ama Brasil há 27 anos, é também Diretor do Deagro – Departamento do Agronegócio da Fiesp e Membro da Câmara Temática de Insumos Agrícolas do MAPA.

1. Apesar de os fertilizantes importados serem isentos de impostos, o produto pode ser penalizado pelos custos de importação. No entanto, o Brasil hoje depende fortemente da importação de fertilizantes NPK. Qual é a visão da AMA sobre o mercado nacional se os fertilizantes importados fossem taxados? Obrigatoriamente o investimento no setor aumentaria? 

Não são só impostos que pesam nos custos das importações. O custo final agrega transportes marítimos caros, descargas onerosas, sobre o frete marítimo é recolhido o AFRMM – Adicional de Frete para Renovação da Marinha Mercante -, no montante de 25% sobre o frete, quebra de mercadoria, seguros e outros custos financeiros para fechamento de câmbio. Normalmente, grande parte das plantas fica distante dos portos e há o acréscimo dos valores dos fretes rodoviários.

No tocante, a dependência do Brasil por fertilizantes do mercado internacional faz com que o abastecimento seja feito em 80% no mercado internacional. No caso do potássio dependemos, em 2014, de 95% das importações. Fósforo, 61% e nitrogenados, 83%. Sem uma posição final sobre a matéria, pois é extremamente complexa, há necessidade de que não são só proteções tarifárias que estimularão investimentos. Em termos de proteção, os dados que descriminamos acima como frete marítimo, portos, AFRMM, quebras, transportes rodoviários e outros já são de certa forma uma proteção. Outro fator relevante é que, para alguns casos de fertilizantes, como potássicos e fosfatados, há dependência de jazidas que possam atender economicamente as instalações de plantas. No caso do nitrogenado, a dependência é de gás para produzir amônia e desta a fabricação de ureia, sulfato de amônio, nitrato de amônio ou outros. Tanto no caso das minerações como do gás terá que haver um equilíbrio entre a planta produtora e o mercado consumidor.

Com relação aos investimentos no setor, com os dados levantados acima haverá uma avaliação de caso a caso relacionada ao retorno do capital investido nos projetos.

 

2. Frente ao cenário econômico atual de grande instabilidade, qual é a expectativa para o mercado das empresas misturadoras de fertilizantes?

É lógico que a instabilidade afeta toda a atividade, principalmente no que diz respeito aos projetos de investimento cuja maturação demandará mais tempo. No tocante aos misturadores de fertilizantes é importante realçar que o segmento da agricultura vem apresentando resultados melhores do que outras áreas. O consumo de fertilizantes tem crescido de ano para ano numa média de 5,5%. Ocorre que, para tranquilidade do agricultor, é um mercado extremamente competitivo e com inúmeras opções para o atendimento, produtos de alta qualidade e preços convenientes. Resumindo: apesar destas características do mercado, as perspectivas para o segmento misturador são otimistas.

 

3. Nos últimos anos, o consumo de fertilizantes aumentou no Brasil aliado ao uso de tecnologia e investimentos no setor agrícola. Além disso, há tendência de aumento da demanda mundial por alimentos. Quais serão os efeitos sobre o mercado brasileiro de fertilizantes?

Como mencionado acima, o consumo vem aumentando gradativamente, permitindo com isto ganhos significativos na produção e na produtividade agrícola. O aumento do consumo mundial de alimentos tem sido substancial. Não só em termos de volume, mas principalmente em termos da exigência de produtos mais sofisticados tais como frutas, vegetais e proteínas dependentes de rações, que também exigem maior aplicação de fertilizantes. Estes fatores abrem uma janela significativa para o mercado brasileiro. A FAO em seus estudos tem pontificado que a demanda mundial de alimentos em 2022, deverá aumentar 20% sobre o consumo de 2012. Para atender este mercado a mesma FAO considera que o Brasil poderá contribuir com um aumento de 40% na produção de alimentos fibras e energia também com base em 2012. Este aumento, para ficar claro, é sobre a produção do Brasil e não sobre a produção do mundo. Como ratificamos, estas condicionantes são um campo de enorme possibilidade para todo o agronegócio e que com certeza será aproveitado.

 

4. Qual a visão da AMA em relação à produção de fertilizantes no Brasil?

O mercado de fertilizantes, exatamente em função do boom assistido na agricultura e no agronegócio como um todo, teve um crescimento extremamente rigoroso. Há cerca de 20 anos, a produção nacional de fertilizantes, principalmente no tocante a nitrogenados e fosfatados, era muito mais atendida pela produção doméstica do que pela importação. Como mencionamos acima, as decisões de investimentos não são fatores simples e isolados. Independente do anseio nacional de que se aumente cada vez mais a produção interna de fertilizante, a fim de se reduzir a dependência e risco cambial e se abrir perspectiva para contração da mão de obra, é relevante registrar que o segmento misturador há mais de 100 anos tem atendido com perfeição a agricultura. Somos extremamente otimistas neste ponto de vista. Este atendimento é feito a custos extremamente competitivos, pois a indústria nacional, de forma correta, baseia e continuará baseando os preços para o mercado nacional considerando todas as despesas que o seu concorrente externo tem que agregar e que já destacamos acima, tais como frete marítimo, portos, AFRMM, fretes internos, quebras e outros custos. Esta posição nada tem a ver com uma visão favorável a que haja investimentos significativos no setor, para que o misturador tenha também uma forte oferta nacional, aonde buscar suas matérias primas.

 

5. Tudo indica que as vendas de fertilizantes fechem o ano de 2015 abaixo do volume recorde do ano passado. Após um ano de menor consumo de fertilizantes, qual é a perspectiva para o mercado em 2016?

É bem possível que 2015 feche um pouco abaixo de 2014 ou eventualmente aproxime-se de números muito próximos. Até o mês de agosto estávamos 5,5% abaixo. Prever se efetivamente fecharemos o ano com queda nós consideraríamos um pouco prematuro. O ano passado nós tivemos pouca antecipação de compra para a safrinha. É possível que este ano surpreenda. Tem havido algum atraso e dificuldade para liberação de financiamentos, mas existem outras ferramentas que estão sendo acionadas pelo agricultor. Insistimos que ainda é um pouco cedo para fecharmos ou concluirmos estes prognósticos, como sendo absolutos.

Com relação a 2016, somos obrigados a reconhecer que, se estamos tendo dificuldades e opiniões conflitantes para 2015, para 2016 torna-se ainda mais problemático. No entanto, é necessário enfatizar que a agricultura brasileira atingiu tal nível de eficiência, onde grande parte dos profissionais competentes utiliza não só todas as melhores técnicas de cultivo, mas também todas as ferramentas de mercado tais como barter, o hedge e outros. Isto garante que as oscilações de áreas plantadas, de tecnologia utilizada e de proteção aos resultados sejam muito mais significativas do que há alguns anos. Tudo isto nos leva a crer que o consumo de fertilizantes deverá se manter muito próximo a média destes últimos anos e eventualmente até com algum incremento.

 

6. Na sua visão, quais são os principais desafios para o mercado de fertilizantes?

Os desafios para o setor de fertilizantes continuarão sendo os mesmos que temos assistido nos anos anteriores. Há necessidade de uma melhoria significativa no sistema logístico em geral não só para importação, mas como para a distribuição doméstica. Gargalo extremamente presente para agricultura e que reduziria substancialmente os riscos do setor de fertilizantes seria um sistema de seguros que efetivamente embasasse tanto os problemas climáticos, afetando as produções, bem como no tocante ao aspecto da rentabilidade. As oscilações de preços com as baixas significativas nas colheitas são formas de trazer dificuldades ao agricultor e aos fornecedores de insumos. O problema do crédito também necessitaria ser revisto. A sistemática aplicada hoje é a mesma de 50 anos atrás e um estudo para atualizar esta prática seria extremamente oportuno para toda a cadeia do agronegócio.

 

Sobre a Ama Brasil

A Ama Brasil – Associação dos Misturadores de Adubos do Brasil foi fundada em setembro de 1980. A entidade representa mais de 60 misturadores, que respondem por aproximadamente 30% das 19.000.000 toneladas do mercado de fertilizantes do Brasil, entregues a agricultura nacional no último ano. Esta representação se faz junto às autoridades governamentais, entidades de classe da agricultura, do comércio e da indústria e todos os demais segmentos da sociedade.

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